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Foto: Felipe Abud

Com o salão Terreiro em Sonho lotado, Conceição Evaristo e Vânia Vasconcelos falaram sobre o povo negro no Brasil: as injustiças sofridas e as estratégias de luta

É de marejar os olhos quando se vê a história sendo escrita na sua frente. Assim se sentiu quem esteve no salão Terreiro em Sonho neste sábado (24) para um dos momentos mais esperados da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará. “Insubmissas Memórias” era o nome da mesa que já começou com insubmissão, com um poderoso ato que reuniu estudantes, professores e o público em geral do evento em uma manifestação a favor da educação pública, entre outras pautas. Mal o ato acabou, começaram as palmas, que não foram poucas para Vânia Vasconcelos e Marília Lovatel, mas que foram à loucura quando subiu no palco Conceição Evaristo. “Dona do Quilombo”, gritava o público que a recebeu. 

Continuando a recepção, João Guilherme e Stéphanie Ramos, os dois com 12 anos e membros do Livro Livre Curió, leram um texto onde falavam das suas questões, mas acima de tudo exaltavam seus tesouros: “dizem que temos pouco, mas temos Conceição Evaristo em nossas prateleiras e corações”. Em resposta, Conceição agradeceu: “hoje, mais do que nunca, precisamos crer na esperança, nas crianças, nos jovens, no futuro”.

Falando aos seus iguais, a Dona do Quilombo introduziu o tema da mesa falando de que, quando se é uma mulher negra, toda escrita é, por si só, um ato de insubordinação. “Tudo que eu escrevo, da produção literária, ensaística, tese, dissertação, nasce da minha condição de mulher negra no Brasil”, disse a escritora. 

Vânia Vasconcelos acrescentou à discussão um dado alarmante: entre 1990 e 2004, 93% dos escritores publicados nas principais editoras do País são pessoas brancas. Sobre os tempos mais recentes, Vânia destaca que, apesar de autoras como Conceição Evaristo estarem ganhando destaque, ainda não se encontram seus textos ou os trabalhos de grandes escritoras negras contemporâneas em livros didáticos. “Alguma coisa muito errada está acontecendo e isso precisa ser consertado”, disse. 

Conceição Evaristo foi ainda mais além. Na mesa, ela relembrou a história da literatura nacional, citando o romantismo brasileiro, época em que se tentava criar heróis nacionais, que destacava o europeu e o indígena como fundadores do País, a exemplo de “Iracema”, mas ignorava o africano como membro criador da Nação. Outro exemplo é Macunaíma, este do Modernismo, que, apesar de negro, torna-se branco em determinada parte da obra. Para ela, isso revela a arte de um País que almeja o embranquecimento.

Foto: Felipe Abud

É neste espaço de apagamento de um povo que ela propõe interferir com a sua literatura, desenvolvendo as suas insubmissas memórias, suas obras com a função de entender os afro-brasileiros e, acima de tudo, empoderá-los. Daí surge a sua escrita com vivência, a “escrevivência”, termo que ela usa desde 1995, mas que se tornou famoso em um seminário em 2009 quando Conceição disparou: “a nossa escrevivência não é para adormecer a casa grande, e sim acordá-la dos seus sonos injustos”.

Em êxtase, o público do salão Terreiro em Sonho assistiu e participou de um momento único, histórico, onde a luta pela igualdade mostrou mais uma de suas armas: a literatura de Conceição Evaristo.

Sobre a Bienal

A XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará é apresentada pelo Ministério da Cidadania e pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. Realizada pelo Instituto Dragão do Mar, Governo do Estado do Ceará, por meio da Secult, e Governo Federal, a Bienal do Livro conta com os patrocínios de Bradesco, Cagece, Grendene e Cegás, e com os apoios de Fecomércio, Sebrae, Universidade de Fortaleza (Unifor), Unilab, TV Ceará, Sistema Verdes Mares, Grupo O Povo, Café Santa Clara, RPS Eventos, Câmara Cearense do Livro, Sindilivros-CE, Câmara Brasileira do Livro (CBL), Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), Associação Nacional de Livrarias (ANL), Prefeitura de Fortaleza e das Secretarias de Educação (Seduc), Turismo (Setur), Cidades (SCidades) e Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Estado do Ceará (Secitece).


Serviço
XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará
De 16 a 25 de agosto, de 10h às 22h
Centro de Eventos do Ceará
facebook.com/BienalDoLivroDoCeara
instagram.com/bienaldolivroce
bienaldolivro.cultura.ce.gov.br