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Não é o fim da travessia, apenas mais um trecho do grande mar por onde a Femme Bateau de Sérvulo Esmeraldo navega em versos, páginas e palavras, levando consigo desde veteranos que sabem do poder transformador do livro e da leitura até novatos prestes a descobrir infinitas possibilidades

É com esse sentimento de contribuição que se encerra a XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, importante espaço de fortalecimento de políticas públicas e de iniciativas civis do setor. Neste ano foram dez dias de programação intensa, para todos os públicos e totalmente gratuita, com mais de 450 mil visitantes, superando o número da edição de 2017, incluindo 809 escolas e 45 mil alunos, além de milhares de encontros, contatos estabelecidos e ideias trocadas.

Em 12 mil metros quadrados de área no Centro de Eventos do Ceará foram montados 15 espaços temáticos, que receberam 130 horas de programação e 300 convidados, entre autores, escritores, poetas, pesquisadores, mestres da cultura e outros artistas. A soma também inclui a Bienal Fora da Bienal, eixo que levou atividades para fora do Centro de Eventos, em espaços e equipamentos públicos culturais de Fortaleza e de outros municípios. 

As atividades incluíram saraus, palestras, apresentações de teatro, música e outras linguagens artísticas, oficinas, vivências, contação de história, mediações de leitura e bate-papos. A Feira do Livro, por sua vez, reuniu 400 editoras, 27 livrarias e 150 expositores, com 90 mil títulos disponíveis e 112 lançamentos de livros. Foram vendidos mais de 526 mil exemplares, o que movimentou R$ 9,6 milhões e compras. No total, foram gerados 3 mil empregos diretos e indiretos.

Para a curadora Ana Miranda, a Bienal teve uma “atmosfera de muito congraçamento e uma presença política bastante forte. Muitas pessoas disseram que foi um espaço de resistência, e realmente é. A celebração que a Bienal faz em torno do livro e da leitura é algo da maior importância”, comentou.

A avaliação é reforçada pela coordenadora geral Goreth Albuquerque. “Sabemos que há números que traduzem o impacto no público atingido e na economia criativa do Estado. Mas em uma avaliação do ponto de vista mais emocional, o que temos são falas extremamente felizes. Neste ano um dos grandes desafios foi o crescimento da Bienal Fora da Bienal, e nesta edição temos recebido depoimentos muito emocionados com as experiências da Bienal nas escolas, no presídio, nas comunidades, sobre como a Bienal caminha pela cidade e se expande. Vimos que temos um público gigantesco aqui no Centro de Eventos, mas temos outro público que não pode estar aqui e que ainda assim também recebeu a Bienal”, sublinhou.

O sucesso da visitação escolar foi destaque na Bienal, que trouxe mais de 800 escolas de todas as regiões do Ceará. Milhares de alunos tiveram acesso não apenas à Feira para a Bienal, mas a diversas atividades da programação, o que garantiu experiências diferenciadas com o livro e a leitura para mais de XX mil alunos.

Entre os momentos mais marcantes da XIII Bienal está certamente a presença da escritora Conceição Evaristo. Nome consagrado no cenário da produção literária do País, sua obra é pautada por sua existência como mulher negra de origem pobre, em uma sociedade ainda profundamente racista e machista, e dentro de um sistema que opera essencialmente a partir da exclusão e da opressão dessas populações.

Hoje doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense e autora de livros premiados, foi recebida na noite de sábado (24) em um espaço absolutamente lotado na Bienal, aos gritos de “Dona do Quilombo”. Conceição introduziu o tema da mesa, “Insubmissas memórias” falando que quando se é uma mulher negra toda escrita é, por si só, um ato de insubordinação. “Tudo que eu escrevo, da produção literária, ensaística, tese, dissertação, nasce da minha condição de mulher negra no Brasil”, disse a escritora. 

Destaque ainda para os grandes públicos mobilizados por escritores como Frei Betto, Ailton Krenak, Mário Magalhães e Eduardo Agualusa. Em uma participação permeada pela veia política de seu trabalho, Frei Betto – ícone da luta contra a ditadura militar brasileira e autor do clássico “Cartas da Prisão”, escrito no período em que esteve preso – ressaltou: “vamos guardar o pessimismo para dias melhores. É muito importante não desanimar e reforçar o poder popular”, sobre o atual governo do País.

Mário Magalhães também trouxe a carga política de seu trabalho com o livro recém-lançado “Sobre lutas e lágrimas – uma biografia de 2018”, no qual trata o turbulento ano como um personagem. Ailton Krenak, por sua vez, foi um dos destaques da grande presença indígena nesta Bienal.“É importante ter a oportunidade de falar aqui, pois isso convida as narrativas dos povos indígenas e de outras tradições que não estão em evidência na literatura. Esses encontros permitem compartilharmos histórias e memórias de diferentes povos e etnias”, comentou durante sua participação no bate-papo “Narrativas Indígenas, a Memória dos Antigos”, no último dia 18 (domingo). Vale ressaltar ainda a presença de Guilherme Boulos, no dia 23 (sexta-feira), quando fez uma fala que lotou o espaço Terreiro em Sonho. 

A partir de sua curadoria em 18 eixos temáticos, a XIII Bienal buscou estabelecer uma programação pautada pela diversidade étnica e social, buscando configurar-se um encontro plural e inclusivo, abrindo espaços para a periferia, os novos escritores, povos indígenas, mestres da cultura e da oralidade, e valorizando escritores e obras cearenses e os encontros (de periódicos, de bibliotecas, de mediadores, de oralidades e escritas).

Fora do Centro de Eventos, a Bienal Fora da Bienal confirmou mais uma vez seu potencial para emocionar e promover a troca, o encontro e o acesso à cultura para comunidades que muitas vezes não podem se fazer presentes na programação central. O eixo levou autores convidados para espaços públicos e para equipamentos do Estado, em Fortaleza e outros municípios.

Um dos depoimentos mais emocionantes desse eixo foi o da escritora Simone Paulino, sobre a visita que fez com o autor marroquino Abdellah Taïa ao presídio feminino Auri Moura Costa. “Eu choro. Nós choramos. Várias das mulheres choram. Abdellah diz a elas que estar ali e ouvi-las deu um sentido profundo à sua literatura”, escreveu Paulino no Facebook.

Ressalte-se ainda o protagonismo do IV Festival de Ilustração do Ceará, que nesta edição da Bienal ampliou o alcance, passando de um evento de caráter municipal para estadual, com convidados de fora – entre eles o ilustrador Odilon Moraes, referência no País, e que fez uma fala marcante em sua participação. O Festival também abriu espaço para novos talentos de uma ampla produção local que traduz o bom momento e o papel que a ilustração tem assumido na área cultural como um todo e no mercado das artes visuais e editorial.

Sobre a Bienal

A XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará é apresentada pelo Ministério da Cidadania e pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. Realizada pelo Instituto Dragão do Mar, Governo do Estado do Ceará, por meio da Secult, e Governo Federal, a Bienal do Livro conta com os patrocínios de Bradesco, Cagece, Grendene e Cegás, e com os apoios de Fecomércio, Sebrae, Universidade de Fortaleza (Unifor), Unilab, TV Ceará, Sistema Verdes Mares, Grupo O Povo, Café Santa Clara, RPS Eventos, Câmara Cearense do Livro, Sindilivros-CE, Câmara Brasileira do Livro (CBL), Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), Associação Nacional de Livrarias (ANL), Prefeitura de Fortaleza e das Secretarias de Educação (Seduc), Turismo (Setur), Cidades (SCidades) e Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Estado do Ceará (Secitece).


Serviço
XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará
De 16 a 25 de agosto, de 10h às 22h
Centro de Eventos do Ceará
facebook.com/BienalDoLivroDoCeara
instagram.com/bienaldolivroce
bienaldolivro.cultura.ce.gov.br