Livros homenageados na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará

Terra Sonâmbula, de Mia Couto

Primeiro romance de Mia Couto, Terra Sonâmbula é uma verdadeira aula sobre a velha arte de contar histórias. No Moçambique pós-independência, mergulhado em uma devastadora guerra civil, um velho e um menino empreendem uma viagem recheada de fantasias míticas. 

Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial (1965-75), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992.

O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga, e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra. 

Terra Sonâmbula – considerado por júri especial da Feira do Livro de Zimbabwe um dos doze melhores livros africanos do século XX – é um romance em abismo, escrito numa prosa poética que remete a Guimarães Rosa. Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula, que nos ensina que sonhar, mesmo nas condições mais adversas, é um elemento indispensável para se continuar vivendo.

Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar

A história de uma vida familiar marcada pela figura autoritária do pai e pelo amor desmedido da mãe. Uma parábola com ressonâncias bíblicas e de intenso vigor poético. Obra-chave da literatura brasileira.  

Lavoura arcaica é um texto em que se entrelaçam o novelesco e o lírico, por meio de um narrador em primeira pessoa – André, o filho encarregado de revelar o avesso de sua própria imagem e, conseqüentemente, o avesso da imagem da família. É sobretudo uma aventura com a linguagem: além de fundar a narrativa, a linguagem é também o instrumento que, com seu rigor, desorganiza um outro rigor, o das verdades pensadas como irremovíveis. Lançado em dezembro de 1975, Lavoura arcaica foi imediatamente considerado um clássico, “uma revelação, dessas que marcam a história da nossa prosa narrativa”, segundo o professor e crítico Alfredo Bosi.  

A Casa, de Natércia Campos

O romance pós-moderno tem uma linguagem lírica, trazendo uma rica fantasia sobre as memórias de uma casa que é personagem e narradora da história das gerações que nela moraram.

Filha do escritor Moreira Campos, Natércia Campos seguiu o caminho do pai. Tornou-se escritora. Aquele escrevia contos; Natércia escreveu romances ainda que tenha publicado um livro de contos, Iluminuras, dois livros de viagem, Por terra de Camões e Cervantes e Caminho das águas seguidos por um livro de história: A noite das fogueiras. Em A casa, romance, Natércia Campos imagina uma história na qual a própria casa narra as suas aventuras e desventuras.