Trocas literárias entre Monique Cordeiro e Charlene Ximenes

Por Antônia Gabriela Araújo (Secult/CE – CLLLB) e Goreth Albuquerque (Secult/CE – CLLLB)

A Bienal Internacional do Livro do Ceará é um evento estruturante, uma política pública, que também está interessada em formação. A Pré-Bienal, seguindo o evento-mãe na proposição de encontros formativos com formatos diversos, propôs duas ações no mês de março: uma em formato de roda de conversa, outra como uma oficina um pouco mais longa, provocada por uma das principais efemérides do mês – o Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 8 de março. A formação é transversalizada pelas reflexões sócio-políticas sobre as mudanças, os avanços e a emancipação e participação das mulheres, redefinindo o lugar da mulher na sociedade, temas que também permeiam o sistema literário. 

Aqui, você poderá conhecer um pouco do pensamento norteador de Monique Cordeiro e Charlene Ximenes, as responsáveis pelas propostas de formação do mês de março a partir das literaturas literárias de escritoras brasileiras e de outros países. A Pré-Bienal provocou uma conversa sobre seus interesses, referências e dicas de leitura e você confere aqui as perguntas e respostas que resultaram da conversa entre as duas. Boa leitura!

De Monique Cordeiro para Charlene Ximenes:

Monique: Oi, Charlene, é um prazer poder trocar essas figurinhas literárias com você! Fiquei pensando no que significa esse recorte “leituras contemporâneas” e gostaria que você contasse pra gente um pouco dessa ideia. Além disso, quais temáticas você vê se destacarem?

Charlene: Oi, Monique! É um prazer conversar sobre literatura contigo também. Então, quando me foi proposta a ideia dessa roda de conversa, eu entendi que o objetivo específico era falar de autoras que têm se destacado na produção literária atual. Entretanto, ao refletir melhor sobre o tema e analisar algumas dessas mulheres, conclui que leituras contemporâneas podem ir além disso. São mulheres que tratam de temas atuais, mas também já debatidos, porém com uma linguagem específica e um jeito próprio de fazer literatura. E, entendendo que uma obra precisa do leitor, vejo que o modo como nós lemos essas mulheres nesse século é extremamente significativo, diante de realidades que nos permitam a crítica, a emoção, a revolta e tantos sentimentos que perpassam um leitor. Ao meu ver, as temáticas que mais se destacam são aquelas que tendem a romper com os valores tradicionais, percebo uma busca de identidade e de compreensão de si dos personagens criados por muitas dessas autoras.

Monique: Pensando na relação do antigo e do novo e em toda uma tradição literária, gostaria de saber como você vê a relação entre o clássico e o contemporâneo. E o que isso significa para produção literária das mulheres?

Charlene: Eu gosto muito daquela definição de clássico que o Ítalo Calvino trata no livro Por que ler os clássicos? que diz que “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Eu compreendo que muitas dessas produções literárias atuais já trazem em si incessantes possibilidades de discursos críticos, que nos permitem pensar e ver fatos novos, inesperados, inéditos, tal qual um livro tido como clássico na tradição literária.

Monique: Nas oficinas que propus, Conceição Evaristo foi a principal referência teórica. Ela esteve presente com as suas reflexões a respeito da leitura e da escrita, especialmente com seu conceito de escrevivência. Além disso, também esteve presente com sua produção literária, que é bastante diversificada. Sei que você também abordou as obras de Conceição Evaristo em sua roda de conversa e, por isso, eu gostaria de saber o que você pensa sobre a importância da produção dela no cenário atual.

Charlene: Eu vejo a Conceição Evaristo como uma das maiores escritoras vivas deste país, uma das maiores referências de produção literária, cujos textos trazem em si múltiplas possibilidades de reflexão e de crítica. Dos seus livros, tanto os contos, como os romances e os poemas, percebo que ela faz muito bem aquilo de tratar a palavra como uma arma. Essa mulher, que se disse estar constantemente rodeada de palavras, consegue fazer como ninguém textos no qual tudo parece verdade e tudo parece mentira. Ela impacta o leitor de uma maneira única. Nunca vou me esquecer da primeira vez que li o conto ‘Olhos d’água’ e da emoção tão particular que o final do texto me trouxe. Lembro inclusive de ter utilizado esse conto em específico numa oficina que realizei com jovens entre 13 e 16 anos e como foi bonito ver a emoção deles ao pensar nos olhos de suas mães. Acho que Evaristo faz isso, traz força e identificação para o leitor, sobretudo para nós, mulheres.

De Charlene Ximenes para Monique Cordeiro:

Charlene: Oi, Monique! Primeiro gostaria de dizer que achei extremamente importante a temática da oficina proposta e eu queria muito saber como que você pensa esse percurso de leitura e escrita atualmente e qual a importância de se trazer como referência para discussão autoras como Conceição Evaristo, Paulina Chiziane e Audre Lord?

Monique: Oi, Charlene! Amo falar sobre livros e mulheres e acho importante a gente utilizar a literatura também como possibilidade de emancipação. Pensei nas oficinas para a gente caminhar nas palavras de diversas autoras e nas nossas próprias palavras. Eu penso que alguém que pretende escrever precisa ampliar seu repertório de leitura; não só de livros, mas da vida. Então, utilizei referências de autoras nacionais como Nina Rizzi, Angélica Freitas, Jarid Arraes, Conceição Evaristo, Maria Valéria Rezende, dentre outras, e estrangeiras, como Rupi Kaur, Scholastique Mukasonga e Bernardine Evaristo para que ampliassem a nossa visão de literatura e de mundo. A partir daí, propus a escrita como um lugar de expressão onde se podia desabafar, ficcionalizar a realidade e/ou criar mundos possíveis. Para esse trabalho, foi importante trazer referências que dialogassem com a realidade do público da oficina, em que a maioria são mulheres mediadoras de leitura em bairros periféricos de Fortaleza. Essas três autoras pensam o lugar da mulher periférica e negra, além de refletir sobre as condições de produção que elas têm para se expressar e ter o seu discurso registrado e validado. Em um dos textos, Paulina Chiziane conta que muitas vezes escreveu seus livros ao som das bombas que estouravam nas ruas de sua casa.

Charlene: Explica para gente um pouco de como foram os exercícios de escrita que você levou para as participantes. Houve alguma dificuldade no processo? Vi que você pensou nesses registros como possibilidade de expressão da vida e queria saber até que ponto a Conceição Evaristo e seu conceito de escrevivência esteve presente no debate da oficina.

Monique: Eu selecionei exercícios que estimulassem a reflexão sobre si, sobre o/a outro/a, sobre o entorno. Os exercícios foram para rememorar a infância, os sonhos e os medos, explorar o olhar para as pessoas com características diferentes. Também achei importante pensar em si e nessas pessoas agindo no mundo. Algumas dificuldades foram relatadas. Algumas mulheres disseram que costumavam escrever e parar. Outras escreviam, gostavam de escrever, mas se sentiam bloqueadas por circunstâncias pessoais. Eu destaquei o conceito de escrevivência, de Conceição Evaristo, porque acredito nessa ideia de que é importante escrevermos nossas vivências, recriamos as nossas narrativas. Além disso, utilizar a escrita para questionar. Nas palavras da própria autora: “Escrevivência, antes de qualquer domínio, é interrogação. É a busca por se inserir no mundo com as nossas histórias, com as nossas vidas, que o mundo desconsidera.” Acho que é importante provocar o questionamento sobre “por que não escrever?” Se já escreveu em algum momento, “por que parou de escrever?” e “o que tem bloqueado essa criatividade?” Acho que Dona Conceição nos ajuda a explorar essas questões.

Charlene: Por fim, queria saber qual foi o momento mais marcante na oficina para você, enquanto mulher leitora e consumidora de textos e produções de outras mulheres. De que forma todo esse afeto perpassa a sua experiência de vida? Imagino que deva ter sido muito bonito esses dias acompanhando esses textos e essas vivências.

Monique: O momento mais marcante foi o dia em que trabalhamos com as poetas. Foi uma tarde mágica do início ao fim. Os poemas escolhidos falavam tanto de cada uma, que foi bem emocionante. A gente investigou um pouco mais da linguagem da Adélia Prado e da Conceição Evaristo, percebendo como elas construíram o efeito poético nos seus textos. E foi bonito perceber a palavra criando imagem e acrescentando cores à nossa paisagem interna. O ponto alto, para mim, foi a participação de algumas jovens, falando da sua relação com a escrita, mostrando uma intimidade muito bonita. Eu me identifico muito com esse amor pela leitura e pela escrita e me questiono constantemente sobre quem precisa autorizar a gente a escrever. Na verdade, ouvindo aquelas jovens, percebi que a palavra já é nossa, mesmo que teimem em tirá-la de nós, elas tão aí para serem usadas.

Monique Cordeiro (@niquemaria_cm) é escritora, professora na rede estadual e mediadora de leitura. Participou com conto e crônica no Prêmio Off Flip de Literatura (2021), integrou a antologia de contos “Pela Janela do quarto – visões da quarentena”, publicada pela Editora Voz de Mulher (2021). Em 2019, foi uma das curadoras e mediadoras do Salão do Professor na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará. Mestra em Linguística Aplicada (UECE) e Especialista em Escrita e Criação (UNIFOR).

Charlene Ximenes é professora de História há mais de 11 anos, possui um perfil de leitura no Instagram desde 2016 (@livrosdacha), é mediadora do clube de leitura da Sublime e acredita na arte, nos livros e na educação como grandes transformadores da sociedade.

Sobre os encontros formativos

A oficina “Mulheres na Literatura: da leitura à escrita poética”, com Monique Cordeiro, trouxe uma proposta que visa divulgar a produção literária de escritoras diversas, nacionais e estrangeiras, além de estimular a produção de textos ficcionais e/ou autobiográficos como registro das reflexões provocadas e como possibilidade de expressão da vida. Durante os dias de oficina, as participantes tiveram contato com ensaios, poemas, contos e romances de autoras como Conceição Evaristo, Paulina Chiziane, Audre Lord, Gloria Anzaldúa, Nina Rizzi, Rupi Kaur, Angélica Freitas, Jarid Arraes, Geni Guimarães, Maria Valéria Rezende, Scholastique Mukasonga, dentre outras. A partir das temáticas abordadas nos textos, houve uma conversa sobre linguagem e estilos literários, sobre diversidade e emancipação feminina. Em cada dia, foram realizados exercícios de escrita para que, no final, fosse produzida uma zine como resultado da oficina. 

Na Roda de Conversa Leituras Contemporâneas, com Charlene Ximenes, a mediadora de clubes de leituras comentou com o público sobre a literatura de mulheres escritoras de diferentes etnias que têm impactado a literatura contemporânea. A mediadora trouxe nomes como: Conceição Evaristo, Chimamanda, Elena Ferrante, etc. A roda de conversa se iniciou com uma breve apresentação de 9 mulheres escritoras contemporâneas, dentre as quais 6 delas eram brasileiras (Conceição Evaristo, Giovana Madalosso, Aline Bei, Ana Martins Marques, Maria Valéria Rezende e Lorena Portela) e 3 escritoras de países diferentes (Chimamanda Ngozi Adichie, Elena Ferrante e Svetlana Aleksiévitch). O objetivo inicial era escolher apenas 8 mulheres, tendo em o vista o dia 8 de março, mas considerou importante trazer a Lorena Portela para o debate, por ser uma autora cearense, cuja produção de sua obra se deu de forma independente. 

As escritoras foram apresentadas a fim de evidenciar suas distintas idades, locais de nascimento e produções. Conceição Evaristo foi o norte da discussão, sobretudo no que se relaciona aquilo que ela trata como ficções da memória, no qual nada é verdade e nada é mentira. O texto da Conceição, repleto de subjetividade, bem como seu conceito de escrevivência percorreu muitas das pautas do que debatemos no dia. Outro ponto essencial foi o diálogo entre o que é uma escritora contemporânea e qual a importância de se conhecer a biografia, a vivência daquela que se lê. Em síntese, a roda de conversa foi um diálogo afetivo sobre literatura, produção literária, livros, biblioteca e leitor.

Dicas de Livros

Monique Cordeiro

  • “Sereia no copo d’água”, Nina Rizzi
  • “Um útero é do tamanho de um punho”, Angélica Freitas
  • “Redemoinho em dia quente”, Jarid Arraes
  • “Insubmissas lágrimas de mulheres”, Conceição Evaristo
  • “O voo da guará vermelha”, Maria Valéria Rezende
  • “Ponciá Vicêncio”, Conceição Evaristo
  • “Garota, mulher, outras”, Bernardine Evaristo

Charlene Ximenes

  • “Olhos d’água” e “Ponciá Vicêncio”, Conceição Evaristo
  • “O voo da guará vermelha”, Maria Valéria Rezende
  • “O peso do pássaro morto”, Aline Bei
  • “Tudo pode ser roubado”, Giovana Madalosso
  • “O livro das semelhanças”, Ana Martins Marques
  • “Primeiro eu tive que morrer”, Lorena Portela
  • “A guerra não tem rosto de mulher”, Svetlana Aleksiévicth

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out LoudPress Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out LoudPress Enter to Stop Reading Page Content Out LoudScreen Reader Support